Quando a autocobrança deixa de ser força e vira sofrimento

Talvez você seja aquela mulher que resolve.

Trabalha, cuida, organiza, lembra de tudo, tenta não decepcionar ninguém e ainda encontra espaço para pensar no que poderia ter feito melhor.

Por fora, isso costuma ser chamado de força.

Mas existe um momento em que ser exigente consigo mesma deixa de ajudar e começa a machucar.

Quando nada parece suficiente

Você termina uma tarefa e já pensa na próxima.

Recebe um elogio, mas se lembra do que poderia ter feito melhor.

Descansa e sente culpa.

Comete um erro pequeno e passa horas revendo a situação.

Diz “não” para alguém e depois se pergunta se foi egoísta.

Nesse ponto, talvez já não estejamos falando apenas de responsabilidade.

Estamos falando de uma cobrança interna que nunca se satisfaz.

E a pergunta começa a mudar.

Não é apenas:

“Por que eu me cobro tanto?”

Mas:

“O que eu sinto que preciso provar?”

Nem toda cobrança começou em você

Às vezes, chamamos de perfeccionismo algo que foi se formando muito antes.

Talvez você tenha aprendido que precisava ser madura.

Responsável.

Boa aluna.

Boa filha.

Boa profissional.

Boa mãe.

Talvez errar significasse decepcionar alguém.

Talvez ser útil tenha se tornado uma forma de ser reconhecida.

E então você cresce, mas aquela exigência continua funcionando dentro de você.

Mesmo quando ninguém está mais cobrando.

O problema não é querer crescer

A psicanálise não propõe que você abandone seus objetivos ou deixe de ser ambiciosa.

A questão é outra.

Existe diferença entre desejar fazer bem e sentir que você só tem valor quando faz tudo certo.

Entre responsabilidade e medo de falhar.

Entre dedicação e punição.

Algumas mulheres conseguem muitas coisas movidas pela autocobrança, mas nunca conseguem sentir que chegaram.

Sempre existe mais uma meta.

Mais uma culpa.

Mais alguma coisa para corrigir.

Por isso, talvez uma pergunta importante seja:

quem você seria se não precisasse provar o tempo inteiro que dá conta?

Na análise, não se trata de tirar sua força.

Trata-se de entender por que ela precisou se transformar em exigência permanente.

Porque talvez você não precise fazer menos.

Talvez precise parar de viver como se nunca fosse suficiente.

Karina Cintas
Psicanalista Clínica
Se algo neste texto encontrou você, talvez exista algo aí que mereça ser escutado.

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